Verifiquei que, desde 2001, a partir da experiência britânica, já se debatia, no âmbito da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento das Nações Unidas (Unctad), as vantagens da economia criativa para o apoio ao desenvolvimento de economias vulneráveis na África, Ásia, América Latina e Caribe, através do pleno aproveitamento do seu potencial cultural para o desenvolvimento econômico e social. É importante observar que a diversidade das culturas e dos produtos que elas engendram, desde tempos imemoriais,alimentou o comércio de sedas, damascos, brocados, incenso, perfumes e especiarias, entre Oriente e Ocidente, Sul e Norte.
É evidente a inadequação dos atuais paradigmas socioeconômicos em lidar com as discrepâncias distributivas para forjar modelos sustentáveis de inclusão econômica. De outro lado, é também destaque a emergência de uma nova classe de agentes que busca se integrar no circuito econômico. Essa nova classe de agentes, no Brasil, segundo estudos do IPEA, e no continente latino-americano, segundo dados do PNUD3,corresponde, em grande parte, à população negra da região, atualizada por pelo menos 10 censos que, em 2010, contaram os mais de 140 milhões de afrodescendentes do continente. As estratégias desses agentes se apoiam, muitas vezes, na economia criativa fundada em sua identidade de ancestralidade africana.
Nesse diapasão, a Fundação Cultual Palmares firmou, no ano de 2012, parceria com a Fundação de Apoio às Populações Rurais de Ascendência Africana (ACUA).
Tal parceria funda-se na percepção compartilhada de que é necessário criar espaços qualificados para fomentar o intercâmbio de conhecimentos e práticas que busquem o reconhecimento do importante papel desempenhado pelos povos afrodescendentes, particularmente as populações afrorrurais, no processo civilizatório. Como parte da parceria, surge a proposta de realização de uma atividade deintercâmbio no campo do carnaval, atividade artística-cultural da qual a comunidade negra nunca se afastou e que cumpre papel fundante e essencial na sua realização.
Hoje a cadeia produtiva do carnaval movimenta diversas áreas da economia. Conforme especialistas, o carnaval representa 1,7% do PIB nacional e é responsável por 5% dos turistas que chegam ao país durante todo o ano. Com base no carnaval de 2013, os quatro dias de folia trouxe 6milhões de turistas e gerou uma receita em torno de 5,7 bilhões de reais. No entanto, o investimento nessa festividade ainda não expressa sua magnitude. É nesse sentido que torna-se necessário discutir o carnaval no campo das políticas públicas e pensar as instituições negras nesse cenário.A realização do Seminário Internacional Carnaval Identidade Negra e Economia Criativa materializou a proposição.
O evento como um todo aconteceu em três cidades Brasileiras entre os dias 14 e 23 de Fevereiro de 2014. Numa ordem cronológica, o evento passou por Rio de Janeiro, Recife, e Salvador. Importante relatar que no diálogo com possíveis parceiros na realização do Seminário, para além da ACUA, intercâmbios com outros países foram se incorporando. Trinidad e Tobago, Estados Unidos das Américas (New Orleans), Angola, Barbados e Benin passaram a compor o conjunto dos participantes.
O Seminário Internacional Carnaval Identidade Negra e Economia Criativa
Seus objetivos centrais foram realizar trocas de experiências entre carnavalescos dos países participantes, debater a economia criativa e sua relação com as manifestações afrocarnavalescas na perspectiva do seu fortalecimento e expansão.
Pela especificidade e importância do Seminário, adicionalmente à cooperação com a ACUA, a Fundação Cultural Palmares buscou o apoio da Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura, da Universidade Federal de Pernambuco, dasPrefeituras de Recife e Olinda, e da Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco e outros parceiros.
A metodologia do Seminário incluiu a realização de conferencia, oficinas, rodas de conversas, visitas a espaços culturais e outras diversas formas de intercâmbios. Para além do apoio ao Seminário, a parceria com os órgãos de governo e organizações da sociedade civil interessadas no tema no Brasil e nos demais países permitirá a ampliação dos resultados esperados do projeto e o fortalecimento dos laços institucionais entre os países, numa dinâmica de intercâmbio cultural nessa área. A partir dessas interações espera-se paulatinamente a construção de plataforma para a troca de experiências, oportunidades de negócios e financiamento das manifestações culturais de tradição cultural carnavalesca negra dos países envolvidos.
Objetivos do Seminário
1) Fortalecer as expressões culturais negras, ampliando suas referências como manifestações culturais de caráter internacional;
2) Ampliar a articulação de grupos culturais negros na América latina, África,Caribe e Estados Unidos;
3) Valorizar as iniciativas de grupos culturais carnavalescos no que se refere a sua inserção no mercado;
4) Promover o intercâmbio cultural entre os grupos de tradição negra do Brasil, ´África, América Latina, Caribe, e Estados Unidos.
Resultados esperados com o Seminário
1) Fomentar nos grupos carnavalescos a gestão de negócios;
2) Buscar parcerias para linhas de crédito específicas para grupos de tradição cultural carnavalesca na região;
3) Incentivar a aproximação dos grupos com as empresas patrocinadoras do carnaval
4) Desenhar plataforma para a troca de experiências, oportunidades de negóciose financiamento das manifestações culturais de tradição cultural carnavalesca negra.
5) Criar um Grupo de Trabalho para discutir questões diversas relacionadas ao universo carnavalesco, sendo os primeiros encontros voltados para avaliação/acompanhamento dos debates e encaminhamentos decorrentes do Seminário e dos demais espaços de reflexão da programação.
É hora das instituições de carnaval procurarem os órgãos governamentais que cuidam de políticas públicas voltadas para os afrodescentes, além de centros universitários, para a formação de parcerias que possibilitem de forma efetiva e politica a tomada de decisões que lhes permitam auferir ganhos que beneficiem toda a comunidade e permitam que os grupos que fazem a cultura do país cresçam junto com ele.
fonte: http://www.sidneyrezende.com/noticia/230130+carnaval+e+economia+criativa
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