quinta-feira, 23 de maio de 2013

Economia Criativa: A Virada Cultural é importante. A vida é mais


Todas as manchetes pós-Virada Cultural são sobre violência. Não são invenção. Um garoto de 19 anos morreu baleado. Outras três pessoas levaram tiros. Seis foram esfaqueados. Dezenas de roubos e por aí vai. Isso não é criação de jornalista nem armação de tucano. Isso tudo aconteceu de verdade. E mesmo assim, toda essa violência não é razão para que a Virada Cultural deixe de existir. A Virada precisa ser defendida. Mas não acriticamente. É preciso identificar o que é preciso mudar na Virada Cultural. As duas mudanças mais necessárias estão na cara.

Concentrar a cobertura no que aconteceu de ruim é mau jornalismo. Tá certo que notícia é notícia ruim, mas teve muita notícia boa na Virada. Não vou enumerar, que para isso existem as coletivas de imprensa do prefeito. Vamos cair na real: países violentos têm eventos de massa violentos. Não vamos cancelar a Copa por causa da violência entre torcedores, certo? Outro lado da moeda: comemorar que foi tudo uma beleza é mentalidade de press release. Cantar vitória absoluta por que não rolou violência durante o show dos Racionais, como em 2007? Pô, foi no meio da tarde...



Dá para escrever um tratado com tudo que há de errado com a Virada Cultural. Dá preguiça e, hoje, munição para chatos e carolas. Tem só um pecado que não perdoo: é o populismo bancado pelo sangue alheio. A Virada Cultural é violenta porque vira a noite. Depois das três da manhã, quem está de pé na rua está zoado, e o percentual de doidos e mal-intencionados aumenta automaticamente. E a Virada Cultural é violenta porque acontece principalmente em uma área violenta da cidade, o velho centro.

Minha crítica não-cultural à Virada Cultural se resume nisso. É populismo barato concentrar os eventos no centro, e sai bem caro para quem vai. Às vezes, custa a vida. O argumento é que o centro seria supostamente mais acessível, popular, democrático. Bem, se nós paulistanos vamos desembolsar dez milhões de reais para financiar acesso gratuito a uma programação cultural que habitualmente é paga, proponho darmos também acesso para o povão pisar no chão premium, sofistiquê e diferenciado da capital. Por que a Virada Cultural não acontece em lugares tradicionalmente seguros da cidade, como por exemplo... os Jardins? Itaim? Vila Olímpia? Morumbi? Os ricos da cidade gritariam de pavor, vendo seus bunkers invadidos por jovens populares multicoloridos. Mas seria bem divertido, e principalmente mais seguro.



Não é em benefício próprio. Nunca fui nem irei à Virada Cultural. Já fui profissionalmente em muito show na vida, e meio que me aposentei, especialmente se há perigo de aglomeração. Não fui nem ver minha amada Joan Jett no Lollapalloza... Mas é claro que São Paulo deve ter uma programação cultural pública de ponta, na Virada e o ano inteiro. Só a falta de experiência internacional do brasileiro para São Paulo ser considerado um centro cultural importante. A cultura em São Paulo é pouca, cara, longe, irrelevante, em horários estrambóticos, ou alguma combinação disso tudo.

É prioritário mudar. Não se trata de frufru, lazer, mas de imperativo econômico estratégico. A maior cidade do Brasil tem obrigação de ser nossa ponta-de-lança para o Século 21, e capital da nossa economia criativa. A Virada Cultural deve ser uma de nossas melhores vitrines. Para isso, tem obrigação de ser mais ambiciosa esteticamente. Deixo já a encomenda por mais ousadia para 2014. Dos nove curadores, conheço três - Giselle Beiguelman, Pena Schmidt, Alê Youssef - e sou amigo de décadas de outro, Alex Antunes. A nenhum falta repertório. Mas o time dos nove é homogêneo demais, ainda mais considerando o contexto geral da Secretaria de Cultura, e o enfoque de Juca Ferreira em seus anos no MInistério da Cultura.



Mais importante ainda é que a Virada seja segura. É baixa política fazer da violência nesta Virada Cultural argumento para que ela seja menor, ou desapareça. Já é um patrimônio de São Paulo, com todos os seus defeitos, como tantos outros patrimônios nossos. Mas duas mudanças simples, por parte da prefeitura, tornariam o evento melhor, mais humano e pertinente. A Virada é importante. A vida é mais. Vamos reconhecer que a cidade não é capaz de cuidar de seus cidadãos. Especialmente no centro. Especialmente de madrugada. Insistir no formato atual é garantia de morte para outros garotos de 19 anos em 2014.

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fonte:http://noticias.r7.com/

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